O SILÊNCIO DE DEUS


     Há pouco tempo, um jovem procurou-me, buscando orientação e a confissão. Estava angustiado, pois estava sentindo-se abandonado por Deus. Havia voltado à Igreja há poucos anos e, nesse retorno, sentia o amor de Deus por ele e o Senhor falava ao seu coração. No entanto, neste momento de sua vida, sentia o silêncio de Deus e, por isso, pensava em abandonar suas atividades na Igreja. 

Ouvindo aquele jovem, lembrei-me da minha própria experiência com o silêncio de Deus. Eu, após a minha primeira Eucaristia, em dezembro de 1970, fiquei 26 anos longe da Igreja, frequentando-a esporadicamente. Próximo ao Natal de 1996, recebi da tia de uma querida amiga, Ana, que lecionava na mesma escola que eu, um livreto fininho que narrava as aparições de Nossa Senhora em Medjugórje desde 1981 e também continha todas as Suas mensagens, até aquele momento. Eu simplesmente fiquei encantado com tudo o que eu li. Adquiri mais alguns e os dei aos meus irmãos naquele Natal de 1996.  

Lendo os relatos a respeito de Medjugórje, pensei logo nas aparições de Nossa Senhora em Fátima. Pensei comigo: se eu vivesse em 1917 e soubesse das aparições de Nossa Senhora, será que eu não faria tudo para ir a Fátima? Agora, Nossa Senhora aparece em uma pequena vila da antiga Iugoslávia. Eu sempre tive um amor especial por Nossa Senhora de Fátima. A partir da leitura do livreto sobre Medjugórje, cresceu meu amor por Maria e por Jesus. Não vou me ater a detalhes aqui, pois já escrevi sobre isto em outro texto, mas em julho de 1997, quando acabei de pagar as 18 prestações da minha primeira viagem à Europa, feita em dezembro de 1995 e janeiro de 1996, eu estava embargando para a Itália, de onde, após peregrinar por várias cidades italianas como Roma, Assis, Cássia, São Giovanni Rotondo, Isola de Gran Sasso e Pescara, de onde a peregrinação partiu, de navio, para Split, na Croácia, seguindo para Medjugórie de ônibus. Quando parti para esta peregrinação, ela estava totalmente paga e aconteceram tantas situações para que eu conseguisse fazê-la, que senti ali a mão de Maria Santíssima, a quem eu havia pedido a graça dessa peregrinação, embora eu não tivesse dinheiro para fazê-la. Em Medjugórje ocorreu a confirmação de minha vocação ao sacerdócio. 

Porém, antes disso, aos poucos, fui retornando à Igreja católica, mas demorou alguns poucos meses para encontrar uma igreja na qual me sentisse bem, e isso aconteceu quando passei a frequentar a Igreja São José Operário, em Campo Limpo, São Paulo. Identifiquei-me logo com o pároco, Pe. Francisco Carlos Consorte, sentindo inflamado pela caridade que ele proporcionava em sua pregação. Em pouco tempo, estava participando do grupo dos Vicentinos, da Legião de Maria e do Apostolado da Oração.  

Na festa de São José, no dia 19 de março de 1997, durante a procissão, ajudei a carregar o andor com a imagem de São José, percorrendo algumas ruas do bairro. Que emoção! Eu senti-me indigno dessa honra, mas ao mesmo tempo agradecido.  

Após uma visita de D. Werner Siebenbrock, então Bispo da Diocese de Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro, à minha paróquia, pois ele era amigo do Pe. Francisco, recebi o convite para ingressar no seminário daquela diocese fluminense. Para que eu pudesse responder a este convite, senti a mão de Deus nos mínimos detalhes, uma vez que eu precisava renunciar a muitas coisas, como à minha independência, ao meu emprego, à minha casa, a minha biblioteca com mais de 2.500 livros, às minhas esculturas e pinturas, aos meus amigos, à minha família, enfim, a tudo o que se referia à minha vida de então. E parti para o Rio de Janeiro com tão poucos pertences pessoais que me senti totalmente livre para ser enviado por Deus para qualquer lugar no mundo onde eu me fizesse necessário. Mas fiquei em Nova Iguaçu, onde permaneço até hoje, 25 anos após a minha chegada.  

Eu sentia a intensidade do amor de Deus e de Nossa Senhora por mim! 

No entanto, já no Seminário Paulo VI, comecei a sentir o silêncio de Deus. Ele parecia não mais me ouvir e nem eu a Ele. No entanto, eu era muitíssimo amado pelo povo das duas igrejas pelas quais eu passei durante os 4 anos em que fiquei no seminário, até minha ordenação presbiteral em fevereiro de 2003. Esse amor do povo sempre me sustentou e alegrou espiritualmente, embora o silêncio de Deus me entristecesse. Uma oração constante eu tirava do Salmo 50, o qual orava todas as sextas-feiras nas Laudes: “Dai-me de novo um espírito decidido” e “Dai-me de novo a alegria de ser salvo”.  

Não posso deixar de reconhecer que, ao longo de minha vida, fui sendo amado e dirigido por Deus, sob a proteção de Nossa Senhora, porém, o silêncio de Deus me angustiou muitas vezes. A dor deste silêncio não é só minha, mas de inúmeros cristãos e também encontramos seu eco nas Sagradas Escrituras, principalmente nos Salmos: 

— “Javé, até quando me esquecerás? Para sempre? Até quando esconderás de mim a tua face? Até quando terei sofrimento dentro de mim e tristeza no coração dia e noite?” (Salmo 13, 2-3a.b) 

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Apesar de meus gritos, minha prece não te alcançará! De dia eu grito, meu Deus, e não me respondes. Grito de noite, e não fazes caso de mim” (Salmo 22, 2-3) 

Clamo para ti, e tu não me respondes. Eu insisto, e tua não te importas comigo.” (Jó, 30, 20) 

— Pelas três horas da tarde, Jesus deu um forte grito: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, isto é, ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mateus 27, 4; cf. Marcos 15, 34). 

Voltando àquele jovem do início deste texto, ele sentia-se abandonado por Deus e incomodava-lhe o silêncio de Deus. Então, eu lhe disse o seguinte: 

— Quando eu era pequeno, ganhei uma bicicleta, porém, não sabia andar nela e nem tinha equilíbrio para fazê-lo. Então, meu pai caminhava ao meu lado, amparando-me, mesmo com as duas rodinhas que foram colocadas uma de cada lado da roda traseira da bicicleta. Após um tempo, meu pai tirou uma das rodinhas, mas permanecia próximo a mim, para o caso de eu cair. Finalmente, tirando a outra rodinha, comecei a pedalar sozinho, meu pai permanecendo à distância, me observando. Eu passei a andar de bicicleta sozinho, sem o olhar de meu pai. Com Deus, ocorre o mesmo: ele está ao nosso lado quando estamos nos convertendo. Sentimos a sua presença ao nosso lado. Ele nos vai dirigindo, conforme a Sua vontade. Quando já a conhecemos, ele nos deixa livre para fazer o que ele ensinou, permitindo que nós O levemos a outras pessoas. 

É apenas uma imagem! Uma simples imagem! Uma verdadeira parábola! Deus não nos abandona. Ele nos ensina o caminho e cabe a nós trilhá-lo. E, ao final de nossa vida terrena, Ele estará no fim do caminho, nos acolhendo de braços abertos.