Há poucos anos atrás, em um artigo publicado na “Revista Caminhando”, escrevi uma experiência marcante que tive em uma missa em que vi Jesus na face de um homem pobre, alcoolizado, sujo e mal-cheiroso, que entrara na igreja justamente no momento em que eu fazia a homilia a partir do Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus, capítulo 25, versículos 31 a 46, sobre o Juízo Final: “... tive fome e me destes de comer (...) todas as vezes que o fizestes a um destes pequeninos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes (...) tive fome e não me destes de comer (...) cada vez que não o fizestes a um destes mais pequenos, a mim também não o fizestes”. Como escrevi no início deste texto, essa experiência que tive naquele dia de Finados deu origem ao texto aqui publicado com o título de “Meu Cristo é pobre, sujo e mal-cheiroso”.
No
ano passado, à hora do almoço de um sábado, bateram à porta do Seminário
Propedêutico D. Adriano Hypólito. O jardineiro foi atender e, quando voltou,
não entendi quem estava ao portão, pela dificuldade dele em se expressar.
Quando entendi que era uma criança, fui até o portão e encontrei duas crianças,
um menino de 11 anos e sua irmã, de 9, esta com poucos cabelos, denunciando
estar doente. De fato, dali a pouco o menino disse que ela tinha uma doença no
sangue. Eles estavam pedindo garrafas pet
vazias para vender num espaço de reciclagem próximo ao Seminário para comprar
comida. Pedi-lhes que entrassem e sentaram-se à mesa com os funcionários e os
seminaristas. Enquanto almoçavam com voracidade, fui preparar algumas sacolas
com mantimentos para eles levarem para casa. Da despensa, eu ouvia o menino
falar muito, levando ao riso os que estavam à mesa com eles. Não transcreverei
a conversa. Apenas testemunho, primeiramente, a alegria que aquelas crianças
trouxeram à nossa casa; um pouco mais tarde, ainda dominado por aquela alegria,
senti-me emocionado quando finalmente entendi que mais uma vez Cristo nos havia
visitado, agora na criança, no pobre e no enfermo. Outra emoção tão forte, que
transformou-se em um poema:
Hoje bateram-me à
porta
duas crianças
pedintes,
às quais entraram
em mi’a casa
e almoçaram
comigo.
Uma, tão frágil e
enferma,
comeu e pouco
falou.
a outra, esperta e
feliz,
a refeição
alegrou.
Quando partiram
levando
sacolas com
alimentos,
senti-me
agradecido
por ter Jesus
à mi’a mesa.
Ao
longo de minha vida sacerdotal e com a Palavra de Deus, aprendi que precisamos
olhar para o pobre, o sofredor, o excluído reconhecendo nele o próprio Cristo.
Recentemente,
entretanto, graças à experiência pastoral e a um filme cristão, porém não católico
(mas que apresenta uma visão trinitária de Deus em conformidade à nossa fé),
baseado em um livro de sucesso, “A Cabana”, fui compreendendo que não devemos
apenas ver Cristo no pobre, mas ser
para este a própria imagem de Deus.
Resumidamente,
a história narrada no livro e transposta para o cinema fala de um homem que
teve sua filha mais nova assassinada durante um passeio
A
imagem de pai que aquele homem trazia de sua infância provavelmente impediria
que ele tivesse uma experiência positiva com Deus-Pai antropomorfizado em uma
figura masculina. Daí Deus revelar-se a ele como aquela mulher que lhe acolhera
e dera-lhe amor em um momento de grande dor.
Embora
ao longo dos meus 16 anos de ministério ordenado e também durante o período de
exercício de meu ministério leigo
Isto é algo
profundamente sublime: ser a imagem amorosa de Deus para o necessitado, seja
qual for a sua necessidade! E esse convite Deus faz a cada um de nós, Seus
filhos, e não apenas aos que receberam os Sacramentos da Ordem ou se
consagraram como religiosas e religiosos. É um convite que se estende a todos
os leigos.
É esta imensa
graça que a prática da Caridade nos concede!
Pe. Nelson Ricardo Cândido dos Santos
17 de julho de 2018
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