PURGATÓRIO: INVENÇÃO DA IGREJA OU REALIDADE ESPIRITUAL?
É muito comum ouvirmos - nós, católicos -, de nossos irmãos de igrejas evangélicas, que Purgatório não existe. No contexto bíblico evangélico, o Purgatório não é um conceito aceito, pois a palavra não aparece na Bíblia e, afirmam, foi criada pela Igreja. Os evangélicos acreditam que, ao morrer, as almas vão diretamente para o céu ou para o inferno, dependendo de sua relação com Deus.
De fato, Jesus falou sobre o céu e o inferno, mas jamais usou a palavra “purgatório” em seus ensinamentos. Na parábola do rico e de Lázaro (Lucas 16, 19-31), por exemplo, o rico avaro vai para o inferno e Lázaro, pobre desprezado pelo rico, vai para o céu. No decorrer da parábola, ouvimos o Pai Abraão (imagem de Deus-Pai) dizer: “...entre ti e nós há um grande abismo, de forma que os que desejam passar do nosso lado para o teu, ou do teu lado para o nosso, não conseguem” (Lucas 16, 26a). Assim, há duas realidades espirituais: céu e inferno, destino conforme a prática ou não da caridade (segundo Mateus 25, 31-46).
Sobre a questão do Purgatório (CIC 1030-1032), o Catecismo da Igreja Católica nos diz: 1030Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da sua salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do céu. 1031A Igreja chama Purgatório a esta purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativamente ao Purgatório sobretudo nos concílios de Florença e de Trento. A Tradição da Igreja, referindo-se a certos textos da Escritura fala dum fogo purificador: «Pelo que diz respeito a certas faltas leves, deve crer-se que existe, antes do julgamento, um fogo purificador, conforme afirma Aquele que é a verdade, quando diz que, se alguém proferir uma blasfémia contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado nem neste século nem no século futuro (Mt 12, 32). Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas neste mundo e outras no mundo que há-de vir». 1032. Esta doutrina apoia-se também na prática da oração pelos defuntos, de que já fala a Sagrada Escritura: «Por isso, [Judas Macabeu] pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres das suas faltas» (2 Mac 12, 46). Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o Sacrifício Eucarístico para que, purificados, possam chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos: «Socorramo-los e façamos comemoração deles. Se os filhos de Jó foram purificados pelo sacrifício do seu pai (cf. Jó 1,5), por que duvidar de que as nossas oferendas pelos defuntos lhes levam alguma consolação? [...] Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer por eles as nossas orações».
Realmente, a palavra “Purgatório” não é mencionada na Sagrada Escritura e foi cunhada pela Igreja Católica, porém, a ideia de um estado de espírito entre céu e inferno aparece na pregação de Jesus. Lembro-me muito bem de que, quando iniciei meus estudos de Teologia, em 1.999, ingressando no Seminário Paulo VI, da Diocese de Nova Iguaçu, descobri um estado intermediário para o espírito humano, no capítulo 5 do Evangelho de Mateus (o que mais fala à existência humana), versículo 26: “Eu garanto que não sairás de lá enquanto não pagares até o último centavo”. Fiquei encantado com a misericórdia divina, que, mesmo após a morte física, quer Seus filhos Consigo no céu.
Essa misericórdia divina saboreei após a minha terrível experiência com a Covid-19, em 2021, que quase ceifou minha vida, deixando-me 4 meses no hospital, sendo metade no CTI e metade no quarto hospitalar, sendo que daqueles, 40 dias foram em coma. Meditando mais uma vez o Evangelho do rico e de Lázaro (e ao longo de mais de duas décadas estudando a Sagrada Escritura), dei atenção a duas palavras, que iniciam as primeiras falas do rico e do Pai Abraão: clama o rico: Pai Abraão” (versículo 24b); responde o Pai Abraão: “Filho” (versículo 25b). Foi na Bíblia que aprendi que Deus nunca deixa de ser nosso Pai e nós nunca deixamos de ser seus filhos, mesmo no inferno. Como consequência, todos os seres humanos, vivos, no céu ou no inferno são nossos irmãos, daí a necessidade de orarmos por eles, de maneira especial pelos vivos, para que se convertam, e pelos que estão no Purgatório, para que, purificados, alcancem um dia a visão beatífica de Deus.
Isso aprendi ao longo de minha vida e de meu ministério ordenado e procuro viver nas celebrações das missas e nas orações do Santo Rosário.
Pe. Nelson Ricardo Cândido dos Santos
30 de junho de 2026