SOBRE O SAGRADO, O PROFANO E O SECULAR
A vida cotidiana, a lida diária em nosso tempo, parece estar desvinculada da fé e, também, do pecado. Há, no ser humano contemporâneo, um esquema mental simbólico, talvez o que Carl Jung chama de “inconsciente coletivo”, que o faz pensar que não tem pecado, pois não mata, não rouba e não estupra. Somente grandes pecados. Assim, considera que não faz o mal, porém, também, não faz o bem.
Sabemos que, em um jardim, se não houver o cuidado para com ele, as ervas daninhas ocuparão todo o espaço, matando, aos poucos, as plantas e flores desse jardim. Transpondo tal imagem para a vida contemporânea, se não houver a prática do bem, o mal avança inexoravelmente e atingirá a todos. Diariamente somos assaltados por notícias que falam de morte, balas perdidas, confronte entre bandidos e policiais, corrupção, falta de segurança, de transporte, de saude, de educação. Não é apenas a periferia das grandes cidades que é assolada pela violência, mas toda a sociedade.
Esta constatação nos faz refletir sobre o título desta reflexão, que estará muito aquém de todo o sistema sócio-político-econômico no qual estamos inseridos. É uma dimensão em meio a tantas outras presentes no mundo hodierno.
Percebo que a fé que é professada nas igrejas, templos, terreiros ou qualquer outro espaço destinado ao culto, independente da igreja ou religião, não leva a maioria de seus integrantes a levar para a vida. Até mesmo a participação da massa populacional nos cultos é muito inferior à sua quantidade. Falta um sentimento de pertença, que deveria levar cada pessoa a viver sua fé e levá-la para a vida. Poucos, em relação à grande população, sentem-se comprometidos com a própria fé, participando dos cultos e sentindo-se responsável pela manutenção dos locais onde vivem e professam a fé. E desses poucos, que professam a fé no templo, muitos só a vivem no templo, não a levando para a vida. Grande parte sequer tem conciência de pecado, pois em seu raciocínio, pecados são apenas os grandes, como afirmei acima. E os pecados do dia a dia? O julgamento, a agressão, a omissão em relação à caridade, o bullying, a fofoca, a intriga e tantos outros “pequenos” pecados? Pecado é tudo o que atinge negativamente o outro. Para Deus, o outro é sagrado e intangível, como ensina os Dez Mandamentos (Êxodo 20).
Em relação a nós, cristãos, independentemente da igreja na qual nos dizemos membros, a situação é a mesma. Em minhas homilias, comento sempre que, se tivéssemos oportunidade de ir ao Complexo Penitenciário de Bangu, no Rio de janeiro, e perguntássemos quem, ali encarcerado, é cristão, dificilmente um não levantaria a mão. Como isso é possível? Será que todos estão lá presos injustamente? Com raríssimas exceções alguém estará lá por injustiça ou justiça falha. Se lá estão, é porque cometeram crimes, sejam quais forem as suas naturezas. Que cristianismo é este que os levam ao crime, à prática do mal, e não à fraternidade, à prática do bem?
Mas a maioria da população vive a sua vida sem a prática dos grandes crimes e pecados, porém, onde fica a prática concreta do bem? Sem esta, o mal avança e atinge a todos. Uma pesquisa do Datafolha, realizada em julho de 2025, revelou que a Igreja Católica é a instituição com maior nível de confiança. de credibilidade entre os brasileiros que responderam à pesquisa. Segundo o censo de 2022, do IBGE, 56,7% da população brasileira afirmou ser católica. Os evangélicos somam 26,9% da população brasileira. Em suma, 86,3% da população brasileira é cristã. Então, como é possível que o Brasil esteja em segundo lugar em todo o mundo no índice de violência, atrás apenas da Nigéria? O cristianismo deveria, por essência, enformar a sociedade em Cristo, porém, o que se vê, é que o mundo é que quer dar forma à fé. Quantos cristão são a favor do aborto, da pena de morte e de outras ações que não levam à construção de uma sociedade igualitária e justa?
Vivemos a cultura da terceirização da vida. A responsabilidade pela educação e pela fé cabe às escolas e às igrejas, não sendo vividas e testemunhadas na família, que deveria ser a primeira a moldar seus filhos segundo a fé cristã. Se a mudança do mundo não começar pela família, continuaremos a viver a decadência social em que nos encontramos.
Não basta não fazer o mal, como já dissemos, mas faz-se necessária a prática do bem por cada cidadão, a educação para a paz e a justiça desde a mais tenra idade da criança. Não basta afirmar que tem fé; tem de testemunhá-la na família e no mundo. Cabe a cada pai, a cada mãe ou a cada responsável por uma criança ensiná-la a fugir do mal e abraçar o bem. Jesus, antes de ascender ao céu, após sua Ressurreição, disse: “...vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês (Mateus 28, 19-20). A vida do cristão não cessa com o Batismo. Após o mandato do Batismo não há um ponto final, mas uma vírgula, que dá continuidade à exortação de Jesus: “ensinando” a “observar”. E observar não significa uma postura passiva na vida, mas, ao contrário, a viver a fé ativamente, como testemunharam a igreja primitiva e tantos mártires cristãos e fiéis ao longo dos séculos.
Entre o sagrado e o profano, entre a fé e o pecado, há o secular, a vida. Se o sagrado não repercutir na vida, o mal continuará a nos atingir.
Pe. Nelson Ricardo Cândido dos Santos
03 de julho de 2026
Festa de São Tomé, apóstolo
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