VÓS SOIS O SAL DA TERRA (Mateus 5, 13a)
Sempre há textos bíblicos, para quem os lê, que falam mais próximo ao nosso coração. Um deles, para mim, encontra-se no capítulo 13 do Evangelho segundo Mateus, ainda no início do “Sermão da Montanha”: “Vós sois o sal da terra”. Todas as vezes em que é mencionado na liturgia da Palavra, durante a Santa Missa, na homilia pergunto à assembleia: “O que é o sal?” A resposta dificilmente é diferente de “É um tempero”. E quando pergunto: “Para que serve o sal?”, a resposta também na varia muito: “Para dar sabor aos alimentos”. (Não entro aqui em outros usos, como a preservação de alimentos, uso na farmacologia e na agronomia). Em cima dessas respostas reincidentes, começo a explicar.
Na verdade, o sal não é tempero, pois o tempero muda o sabor do alimento, como ervas e alho. Também o sal não dá sabor ao alimento. Ele destaca o sabor do alimento. Se a comida estiver insossa, uma pitada de sal destaca o sabor próprio daquele alimento.
No mundo, cada vez mais há pessoas perversas e egocêntricas que despertam em nós aquilo que temos de pior dentro de nós, como vaidades, julgamentos, desejo de vingança e até de homicídios. Quando há notícias de crimes bárbaros, o primeiro impulso é o de maldizer o criminoso e até de desejar sua morte. Também alguns comportamentos de outrem nos despertam ira, preconceitos e maus pensamentos. No trânsito das grandes cidades, a irresponsabilidade de tantos nos faz esquecer de que somos cristãos e, portanto, irmãos. Buzinamos intensamente, xingamos (pobres mães que são difamadas sem a conhecermos!” e desejamos o mal ao motorista irresponsável. Como sempre afirmo, há muitas pessoas que nos tiram do estado de graça e nos levam a excluir essas pessoas de nossos corações e da fraternidade humana.
Assim, cabe a cada cristão dar um testemunho ante o mundo tão violento e caótico em que nos encontramos atualmente, sinais da decadência da sociedade em que vivemos. Devemos, pois, ser sal da terra!
Isso significa que precisamos ajudar as pessoas a tirar de dentro de si próprias o que têm de melhor e não de pior. Evangelizá-las, explicar a cada uma, seja com palavras ou com o exemplo, que ao agirem com bondade, amor, respeito e caridade, todo o mundo ganha, pois a violência diminuirá. O egoísmo destrói a fraternidade. O amor, a constrói.
Reino de Deus, conforme ensinou Jesus, é fraternidade, ou seja, somos todos irmãos, filhos do mesmo Aba-Pai. Por isso é que, ao receber o pedido de Seus apóstolos para ensiná-los a orar, apresentou-lhes o “Pai nosso” e não o “Meu Pai”. Na segunda parte dessa Oração Universal, quando oramos “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”, pedimos muito mais do que um pão, mas o necessário para nossa vida cotidiana, como salários, segurança, educação, saude, transporte igualitários para todos e não para uma minoria. A injustiça social cria extremos de riqueza e pobreza, opulência e miséria. Um autor desconhecido cunhou uma frase lapidar: “O pão que sobre em tua mesa pertence ao pobre”. Aqui está uma chave verdadeiramente santa e sábia, que, se vivida, revoluciona as relações sociais.
A caridade (entendendo-a muito mais além de dar esmola, mas dar-se a si mesmo) desperta o melhor que o seu praticante tem em si mesmo e ajuda os que veem suas ações a imitá-lo. Todo aquele que pratica a caridade e ajuda outros a fazê-lo é “sal da terra”, como ensina o Mestre. "Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos Céus” Quem, ao contrário, violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos Céus”. (Mateus 5,19).
Ser “sal da terra” é via de salvação.
E eu, com minha vida e minhas ações, tenho sido “sal da terra”? Desperto nas pessoas o que elas têm de melhor ou de pior dentro de si?
Pe. Nelson Ricardo Cândido dos Santos
30 de junho de 2026
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