JESUS, O BOM PASTOR




Durante os três primeiros séculos da era cristã, uma das imagens de Jesus mais difundida foi a de Bom Pastor. Somente a partir do século IV, com a oficialização do cristianismo como religião do Império Romano, passou-se a difundir a imagem do Cristo Glorioso; a do Cristo sofredor só passa a prevalecer bem mais tarde, durante a Baixa Idade Média.
O 4.o Domingo do Tempo Pascal é conhecido na Igreja Católica como “Domingo do Bom Pastor”, e as leituras, salmo e Evangelhos desse dia nos remetem à imagem na qual os primeiros cristãos reconheciam com tanta familiaridade a ação de Jesus Cristo Ressuscitado em suas vidas: o pastor que, com carinho maternal, cuida de suas ovelhas, seguindo a tradição profética dos judeus, presente em Ezequiel 34, na qual o próprio Deus toma a decisão de conduzir suas ovelhas, procurar a que se perde, curar a que está doente e fraca, uma vez que os maus pastores não cumprem a sua missão.
Pastor era também o título dado aos chefes do povo. Associando tanto essa liderança junto ao povo, quanto o cuidado com cada pessoa (ovelha) que é confiada ao pastor, a Igreja instituiu neste dia a Jornada Mundial de Oração pelas Vocações Sacerdotais e Religiosas, vocações estas ligadas intimamente ao pedido de Jesus: “A messe é grande, os operários são poucos. Rogai ao Senhor da messe que envie operários à sua messe” (Mt 9,37b-38).
Talvez a imagem de “pastor” não signifique muito para a cultura brasileira, na qual essa figura não existe, mesmo porque vivemos numa sociedade intensamente urbanizada (80% dos brasileiros vivem nas cidades). Mas, para vivermos a mensagem evangélica presente nos textos deste domingo, embora pastor e ovelhas não façam parte de nossa realidade, precisamos apreender a mensagem mais profunda neles contida, que inspire a nossa prática pastoral e a nossa vivência fraterna em comunidade: da mesma maneira que o pastor cuida de cada ovelha como se fosse única, dando-lhe carinho e não deixando que ela se perca do rebanho, porque sabe que ali ela estará sempre protegida, precisamos acolher cada pessoa, atento à sua necessidade subjetiva, encaminhando-a para uma experiência de vida partilhada em comunidade, pois isso é a tarefa de cada cristão na construção do Reino que Jesus inaugurou.
Como faz todos os anos, o Papa João Paulo II escreveu uma mensagem para este 39.o Dia Mundial de Oração pelas Vocações, cujo tema escolhido foi “A vocação à santidade”.
Nesta mensagem, o Papa nos lembra que o dever primeiro da Igreja é dar acompanhamento aos cristãos pelos caminhos da santidade a fim de que, iluminados pela inteligência da fé, aprendam a conhecer e a contemplar o rosto de Cristo e a redescobrir nele a própria identidade autêntica e a missão que o Senhor confia a cada um. Mais adiante, João Paulo II escreve que a Igreja concentra em si todas as vocações que Deus suscita entre os seus filhos e se configura, ela mesma, como um luminoso reflexo da Santíssima Trindade: ela traz em si o mistério do Pai, que chama todos a santificar o seu nome e a fazer a sua vontade; guarda o mistério do Filho que, mandado pelo Pai a anunciar o Reino de Deus, convida todos ao seguimento; é depositária do mistério do Espírito Santo, que consagra para a missão aqueles que o Pai escolheu mediante seu Filho Jesus Cristo.
Ainda na mesma mensagem, o Papa João Paulo II ensina-nos que “toda vocação na Igreja está a serviço da santidade; todavia, algumas, como a vocação ao ministério ordenado e à vida consagrada, o fazem de modo todo singular. É para essas vocações que eu convido todos a olhar com particular atenção, intensificando sua oração por elas”.
Atendendo a esta exortação do Papa, oremos em comunhão com toda a Igreja para que o Senhor da messe não deixe faltar, à sua Igreja, numerosas e santas vocações sacerdotais e religiosas:
“Pai santo, olha para essa nossa humanidade, que dá os primeiros passos no caminho do terceiro milênio. A sua vida ainda é fortemente marcada pelo ódio, pela violência, pela opressão, mas a fome de justiça, de verdade e de graça ainda acha espaço no coração de muitos, que esperam que tragas a salvação realizada por ti, por meio de teu Filho Jesus. Precisamos de arautos corajosos do Evangelho, de servos generosos da humanidade sofredora. Manda à tua Igreja, nós te suplicamos, presbíteros santos, que santifiquem o teu povo com os instrumentos da tua graça. Manda numerosos consagrados e consagradas, que mostrem a tua santidade no meio do mundo. Manda à tua vinha operários santos, que ajam com o ardor da caridade, e impelidos por teu Santo Espírito, levem a salvação de Cristo até os últimos confins da Terra. Amém.

20/04/2002

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